Volta para casa

[...] “Eu vou te dizer a coisa mais simples: Estranho… Você sair grávida, voltar não grávida e sem o neném.  Um vazio, um vazio, um vazio, muito grande….Um vazio, acho que não tem outra explicação”.(Mãe) (Rodrigues, 2009, p.53)

Voltando para casa com os braços vazios é um sentimento desconcertante, é a constatação de que perdeu o filho. Os pais carregam consigo a mala das roupinhas dele, mas não tem nem terá mais este filho junto deles. Entretanto, sair da maternidade pode causar uma sensação de alivio, afinal deixam para trás esse momento difícil que foi a morte do filho. Por sua vez, chegar a casa sem o seu bebê é um dos momentos em que você começa a perceber a magnitude do que acabou de acontecer a você.

[...] No começo, eu achei que ia pirar. Achei que ia ficar louca quando cheguei do hospital. Eu chorava. Eu queria ficar sozinha. Eu ficava lá no quarto do nenê. Aí, eu pegava as roupas. Uma por uma. Olhava. E assim, ia. Aí, como eu desfiz de bastante coisa, só ficaram algumas … aí, às vezes, eu pego. Minha irmã está grávida. Eu falei que ia dar algumas coisas para ela. Ela disse: “Não precisa”. Tipo: “Pra você lembrar do seu nenê, não precisa”. Mãe  ( Rodrigues, 2009, p. 56)

Alguns pais gostam de ter um membro da família com eles, outros preferem ficar sozinhos arrumando a casa, desfazendo aquilo que havia construído para a chegada do filho. São momentos de grande dor e precisam ser expressos como forma de alivio.

É importante tentar comer bem e cuidar de sua saúde. Aqui, a família ou amigos podem ajudar quando os pais não querem sair da casa para encontrar conhecidos perguntando sobre o bebê. Se você puder, peça o que você precisa para sua família ou seus amigos, porque eles estarão lá para te apoiar e te ajudar.

Realizar pequenas tarefas em casa poderá ocupar a mente por um tempo, como preparar a comida, até mesmo algo mais simples, como: regar, varrer, fazer as coisas que não exigem nenhum esforço, mas que de alguma forma faz você se sentir no controle.

Se você tiver mais filhos, precisa atendê-los e para essa tarefa a ajuda da família e amigos será muito útil. Também é provável que tenha de responder às perguntas das crianças (ver seção: Outras crianças).

Pode haver coisas do seu bebê em casa, como: o quarto, roupas, objetos pessoais ou presentes. Alguns pais acham que é muito difícil pensar em o que fazer com todas essas coisas, outros dizem que arrumar as coisas do bebê lhe trás conforto e ajuda-os a chorar e lembrar-se do bebê. Alguns preferem se livrar de tudo o mais rápido possível, outros guardam para o futuro bebê. Ou ainda, esperam para ver o que eles sentem com o passar do tempo e decidem mais tarde o que eles poderão fazer com as coisas do bebê. Talvez seja melhor não tomar decisões precipitadas sobre suas coisas, porque você poderá mais tarde querer ter alguma memória dessas coisas (ver seção: Criar uma memória).

Enquanto seu bebê está morto, seu corpo continua a funcionar e têm os mesmos sintomas pós-parto, ou seja, da mulher que deu à luz. Você terá sangramento pós-parto que podem durar semanas. Você deve continuar o tratamento recomendado pelo médico e se cuidar fisicamente.

A sensação física de ter dado à luz e não ter o seu bebê com você é algo muito estranho e difícil de explicar, há mães que ficam confusas quanto a sua condição física, não querendo dar-se tempo para se recuperar da gravidez e do parto. É normal que um ou ambos pais se interessam em ter outra gravidez imediatamente, como uma forma de acalmar a dor que está sentindo. Não existe uma fórmula perfeita de quanto esperar, é uma coisa muito pessoal, só você e a natureza sabe quando é o momento certo. No entanto, as pesquisas recomendam a espera de seis meses para o útero se recuperar e emocionalmente estar mais adaptado à situação do luto.