Amigas, sempre amigas

Amigas, sempre amigas.

Fazia um bocado de tempo que não via aquela menina. Quando a vi, senti uma sutil sensação incômoda, semelhante a mexer numa gaveta com guardados difíceis de olhar. A menina já está uma moça e até trabalha. Pelo que entendi, faz um estágio em algum escritório de advocacia. Falou, orgulhosa, que conseguiu tudo sozinha. Uma ligação no celular tirou-a de cena. Ficamos a mãe dela e eu. Tínhamos muito para falar, pois fazia um século que não nos víamos. Houve uma época em que éramos muito amigas. Nunca deixamos de ser. Apenas respeitamos os acontecidos e deixamos que nossos rumos seguissem. Como estávamos numa festa, não podíamos nos dar ao luxo de ignorar nossos acompanhantes, outros amigos e amigas e nos isolarmos para conversar num lugar calmo, com menos barulho. Ou será que poderíamos? Não fizemos isso. Foi estranho ficar tão perto dela e partir sozinha para o tempo em que éramos mais jovens. Fui lembrando como gostávamos de falar dos progressos e travessuras dos nossos filhos.  Naquela época, ela, assim como eu, tinha dois meninos. As idades dos quatro variavam entre dez e treze anos. Falávamos também dos maridos, das notícias dos jornais, dos nossos pais e dos nossos pesos. Nossos encontros sempre eram bons. Conseguíamos nos entender e rir com facilidade. Minha amiga, um dia, me procurou desesperada. Na nossa amizade havia espaço de sobra para confissões. Estava em meio a uma grande aflição e dúvida. Descobriu-se grávida e não sabia se queria. Assim como eu, estava perto dos quarenta. Conversamos muito. Achei muitos motivos de alegria e entusiasmo com a idéia de uma nova vida. Falei muito sobre como eu adoraria ter essa chance outra vez. Após assentar dúvidas, medos e fantasias, minha amiga passou a sentir um amor sem fim pela criança que já se avolumava no seu ventre. Não chegou a passar mais que duas ou três semanas e, por uma coincidência incrível, foi a minha vez de descobrir que também estava grávida. Claro que também senti um choque, mas o desejo de ter mais um filho foi logo identificado em mim. Minha amiga e eu passamos a nos vislumbrar empurrando os carrinhos de nossos bebes em volta de uma igreja perto de nossas casas. Chegamos a comemorar juntando as duas famílias em torno de pizzas e refrigerantes. Foram dias muito felizes. Mas, nem sempre a vida segue só com doçuras e alegrias. Com a minha amiga correu tudo bem. Eu não tive a mesma sorte. Em vez de um filho, tive um aborto retido. Precisei me internar numa maternidade. Explicaram-me que precisava tirar o que estava sem vida dentro de mim. Fiz o que tinha que ser feito. E depois fui tocando a vida, como acreditava que me correspondia fazer… Subitamente, um garçom me despertou dos meus devaneios oferecendo-me alguma coisa. Quando as pessoas começaram a se despedir, também fui embora. Estranhamente, apesar da triste recordação, não me sentia mal. Fui pensando que preciso urgente marcar um encontro com minha amiga. Temos um século para colocar em dia…

 

18/6/2011