“Cadê a Aurora Dig?”

“Cadê a Aurora Dig?”

No dia 25 de Agosto de 2014 as 13hs senti entre as pernas um liquido escorrendo. Pensei: “ A Minha filha vai nascer!” . Passei a mão e vi que era sangue, um vermelho forte. Aurora ficou dura na minha barriga, em uma contração muito forte. Estava tudo bem, porque iria me preocupar? Pegamos a malinha de maternidade dela, que já estava pronta, e eu e meu companheiro corremos ate o Hospital Universitário de Brasília. Parecia filme. Fui sentindo muita dor , mas respirando, como me ensinaram nas rodas de gestantes e com esperança de que minha pequena queria nascer um pouco antes do tempo.

Era muito sangue. Me sentia fraca.

Chegamos e já foram tentando ouvir os batimentos fetais e não encontraram. O meu estava fraco. Me lembro como se fosse uma voz bem longe do Dr. me dizendo que não encontraram batimentos da bebe e que precisaria passar por uma cesárea de emergência. Cesárea! Eu que queria e planejava tudo diferente da minha primeira filha, pesquisava parto natural, cheio de ocitocina, muito amor para mim e para minha filha, diferente da frieza de uma cesárea e o trauma de ter 7 camadas cortadas e costuradas…enfim! Me carregaram ate o CO, colocaram a camisola, deram a raqui (me lembro de nem conseguir rezar nesse momento, só pensava positivamente que terá a minha filha logo comigo). Senti todo o percurso do bisturi me cortando finamente. Lembro que gritei de dor, pq senti realmente tudo.

Logo me apagaram!

Acordei acho que talvez meia hora depois que acabaram os procedimentos, meu companheiro entrando no quarto. Eu grog ainda. Só consegui perguntar: “Cadê a Aurora Dig?”

E ai começou todo meu processo que tive que buscar dentro de mim e busco ate hoje, de cura, aceitação e aprendizado espiritual.

Aurora nasceu morta. Melhor, não nasceu. Já a tiraram da minha barriga sem respirar. A placenta estava toda descolada. Fizeram os procedimentos para ela respirar, mas ela não respirou.

Enquanto eu chorava por dentro, perguntando por que , os médicos e enfermeiras estavam cuidando de mim. Foram muitos soros, duas bolsas de sangue e uma de plasma. Remédios, remédios, remédios.

Pensava em tudo… No meu sonho de ser mãe, no sonho da minha filha Cecília de ter a irmã logo com ela, no sonho dos meus pais e sogros de terem a segunda netinha, no sonho da minha irmã de ter logo a sobrinha nos braços. No quarto arrumado, nas roupinhas compradas com carinho, lavadas e passadas!!! No último Pré natal, que tinha feito todos os exames novamente e estavam indicando tudo muito bem. No que havia sentido na vida e o que perdeu ali pra mim…

Foram 5 dias de hospital, ao lado de outros bebês que nasciam bem, e ainda bem que nasciam bem!!! Lembro-me de acordar de madrugada e ouvir o choro de algum bebê ao lado… Sorria e escorria uma lagrima pela minha que não chorou.

Remédio pra secar leite, faixas, pontos doloridos, falta de apetite e pressão que ficava em torno de 16/10. Como se eu nunca tive pressão alta? Me falaram que quando cheguei ao hospital ela estava 14/10. Seria um sinal de pré eclampsia que o Pré natal não conseguiu identificar??? Ao que tudo indica, sim.

E enquanto isso, eu no hospital, meu companheiro, pais e sogro corriam com a logística de uma casa com outra criança de até então com 4 anos de idade, que queria a mamãe, que queria a irmã. E também a burocracia de enterrar um natimorto. Compramos jazigo, serviço funerário…meu companheiro até ironicamente brincou, que esse jazigo foi nosso primeiro pedaço de terra nesse DF especulado pelas imobiliárias do absurdo. Eu não fui, eu não vi a minha filha. Preferi assim… tinha ela exatamente como ela era e havia sonhado.

Uma semana que eu pensava e repensava a minha vida milhões de vezes. Ia e voltava. Como se estivesse pausado um filme e a qlq hora poderia voltar, passar, pular partes difíceis de entender.

Meu companheiro doou tudo com a minha autorização. Doamos para amigas até então gestantes também. Uma passou mal logo em seguida e acabou tendo a sua bebê prematuramente e teve que ficar 10 dias na UTI neonatal, mas hoje a bebê está maravilhosamente bem!

Outras amigas gestantes sofriam distantes. Eram inúmeras mensagens de apoio e carinho. Até hoje me emociono ao lembrar das mensagens e é certamente uma das coisas que me fizeram reerguer.

No meu blog (http://marybaleeiro.tumblr.com/ ), posto os desenhos que fiz para Aurora durante as semanas que a carregava. As fotos que tiramos. Os momentos preciosos que guardarei para todo meu sempre e tudo o que me lembra ela e possa ajudar outras a compreender a morte prematura de bebês. Enfim,uma terapia.