Carta a Gabriel

17/12/2015

 Meu amado filho, esta é carta não é só para você, é também em especial a todas as mães que assim como eu tiveram a perda do seu filho em tenra infância, seja dado como aborto, natimorto, ou morte pré-matura a perda de um filho é algo sem explicação, mas resolvi escrever após três anos da sua partida porque meu coração avisa que posso e devo ser útil para outras mães com situação semelhante vivenciada. Não quero aqui tirar dor nenhuma de uma mãe que perde seu filho, apenas quero mostrar caminhos a qual cada uma em seu momento poderá seguir para se sentir melhor ou menos só nesta dor, e também poder nos ajudar mutuamente.

Escutei na primeira semana após a perda de Gabriel uma das frases mais significativas e que me acalantaram genuinamente na minha dor: “Mãezinha, este foi o tempo de Gabriel, você cedeu seu ventre para que ele recebesse todo este amor e isso ele jamais vai esquecer”.

E foi assim, apenas intenso, muito intenso os nove meses que Gabriel vivenciou conosco uma fase transbordando de amor e de entrega que me acalantaram e ainda hoje me acalanta ao querer evitar lembrar a parte mais difícil que foi não ter meu filho nos braços após o parto. Foi no dia 17.12.12, a data seguinte é a data que eu e meu esposo celebramos o nosso aniversário de casamento, e pensar que nós dois queríamos celebrar dois acontecimentos tão significativos no mesmo ano era de encher os nossos corações de alegria, no entanto, após a última consulta que fiz antes do parto a minha vida ficou sem cor, daí em diante alguns acontecimentos eu apaguei da minha mente e ficaram alguns flashes, no entanto, para agradecer os noves meses tão amados e bem vividos com meu filho prefiro discorrer os mais belos momentos, não deixando de levar a reflexão o despreparo ainda de muitos profissionais de saúde ao lidar com os pais que tem o filho considerado como natimorto, ainda bem que existe anjos comigo chamados de amigos e família que souberem me acolher no momento de luto.

São esses anjos a quem aqui agradeço do fundo meu coração, que me deram força para lidar com a perda nos primeiros meses e retomar a vida, e também estou descobrindo-me útil para ajudar a outras mães com caso semelhante a procurarem ajuda quando a instituição ou profissionais que a recebem (e que deveriam estar preparados para lidar com estes casos) não estiverem capacitados na elaboração do luto de natimorto ou aborto.

Eu pude ter um acompanhamento singular, tão humano como as amizades e familiares, bem como, tão profissional e próximo que foi o da minha terapeuta, todos respeitaram a minha dor, o meu silêncio e o meu tempo, os flashes da perda de Gabriel que lembro me levaram a questionar uma maior humanização dentro dos hospitais para este tema e as situações aqui relatadas que aconteceram comigo é mais uma caso que acompanho em redes sociais que existe em diversas regiões (não apenas em Recife- cidade onde resido).

A falta de cuidado em querer colocar a mãe (no meu caso) no mesmo ambiente (ala do hospital) onde as outras mães acabaram de dar luz, apenas não ocorreu porque meu anjo chamado Fabiana (minha irmã) teve a sensibilidade e firmeza em dizer que eu não estaria em condições para voltar do parto e ficar na mesma ala onde outras mães estariam com seus filhos e foi ela também que teve a coragem de perguntar a médica se poderia entrar na sala de parto comigo e ouvir da mesma dizer que não seria bom para ninguém da família entrar, afinal, “seria um parto silencioso”.

“…E fazer o velório, é de fato preciso”? A pergunta vinha de uma profissional de saúde do hospital onde fui atendida, resposta que eu não tinha a mínima condição de responder na hora (até porque até entrar no bloco cirúrgico eu queria acreditar que meu filho estava vivo), mas, tive mais outro anjo na minha vida, chamado Adriana (minha terapeuta) que assim que soube do acontecimento foi ao hospital me visitar e lá iniciou a elaboração do luto comigo, lembro quando ela perguntou ao meu retorno ao quarto do hospital e sem meu filho de volta: “Qual a roupinha você quer escolher para o velório de Gabriel?” Silenciei e em seguida lembrei da mala da maternidade e disse qual roupinha eu queria que fosse colocada,  foi assim que puder ver e me despedi do meu filho, beijá-lo, acariciá-lo e orarmos por ele.

Outro anjo na minha vida chamado Karla (minha amiga) que esteve presente comigo a todo instante, cuidando e orientado aos meus pais e esposo como lidar nas primeiras semanas de perda do meu filho, de sensibilidade única, ela soube me acolher e ainda me acolhe e trouxe de volta as cores que a minha vida precisava.

Meu anjo chamado Guanay (meu esposo), o pai de Gabriel a quem sentia que queria tirar esta dor de mim e carregar com ele, nós dois choramos muito juntos e cada um soube reerguer o outro, tivemos tempo diferente na elaboração da perda e nos respeitamos com a nossa forma de lidar com isso, foi o melhor pai que Gabriel poderia ter tido, nós dois fortalecemos nossa fé e não deixaremos de fazer os nossos planos familiares.

E mais um anjo da minha vida real chamado Monica (minha amiga), que sabia que de tanto amor existente em mim, eu poderia doar a quem mais precisava, ela me mostrou e conduziu para um caminho onde eu poderia distribuir e receber ainda mais amor, e assim foi no ano seguinte e que assim seja sempre enquanto viver, pois é doando este amor que mais aprendo do que ensino com as crianças que iniciei um trabalho na seara do cristo e que hoje sou grata em fazer um trabalho com uma equipe que semeia o bem, ou seja, os ensinamentos cristãos aos pequeninos.

Hoje eu me sinto mais fortalecida até para dizer a outras mães que procurem seu caminho, o seu tempo e momento de usar bem este amor, é sim: O verbo é usar! Use-o com todo força para quem precisa, não o guarde porque este amor é puro, é enorme, é humano. Não digo apenas usar este amor para outras crianças, pois pode ser para idosos, para outro alguém da família que precisa, para que nem sabe o que é receber amor… Se digo e sinto que anjos existem (e eles não precisam ter asas), é porque são eles a quem devemos pedir ajuda ou deixar ser ajudada (teve ainda tantos outros que não caberia nesta carta de tanto agradecimento), e com certeza nossos filhos vão ficar felizes e agradecidos em saber disso.

Bem, e o que posso ainda fazer com tanto amor? Muito eu sei, e ainda faço pouco, acho que por isso ao decidir escrever esta carta não foi apenas para meu filho Gabriel, e sim principalmente para outras mães para que se sintam acolhidas, amadas e eu espero de coração ajudá-las de alguma forma que seja, conte comigo mãe!

Forte abraço

Cristiane

PS: A carta abaixo foi a que escrevi logo após acordar (da cesariana) e saber que no dia seguinte seria velório do meu filho (li na nossa despedida).