Como me tornei Mãe

Escrevo para contar o que aconteceu em minhas gestações e para questionar a postura dos Conselhos Regionais de Medicina. Questiono com a autoridade de cidadã, de mulher e de mãe.

Sou mãe, publicitária, profissional de marketing, docente. Sempre busquei pautar minhas escolhas em evidências, estudos, ou ao menos, boas recomendações. Às vezes elas falham e isso já aconteceu comigo. Meu primeiro filho nasceu há 14 anos, na época eu tinha 26 anos, quando me vi grávida procurei uma obstetra do plano de saúde, ouvi algumas recomendações e fui. A falta de conhecimento prejudica sempre. Eu achava que estava sendo bem assistida e por ai foi a gestação. Incomodava as consultas mensais onde sempre era necessário um exame de toque, mas achava que isso foi assim mesmo. Já entrando no sexto mês e realizando um ultrassom por mês, outra coisa que parecia normal. Já no sétimo mês eu comecei a ter contrações e foi percebida que a bolsa estava rota, fui para a maternidade e a sentença estava dada: meu filho teria que nascer naquele dia. Fiquei horas na maternidade, a médica só se comunicava por telefone, nunca foi falado em tentar segurar a gestação. Fui submetida por todos aqueles horríveis procedimentos preparatórios para uma cesárea, além da medonha tricotomia, que coisa invasiva! A médica não conversou comigo, ninguém explicou o que estava acontecendo, mandaram minha mãe que estava me acompanhando embora e meu marido que estava viajando fora do país, também não participou de nada. Bem, cheguei à maternidade por volta das 7h30 da manhã, a médica apareceu por volta das 14h e lembro perfeitamente eu no centro cirúrgico com muitas contrações pedindo para que algo fosse feito e ela dizendo “aguenta o anestesista está no trânsito e não faz força!” (pausa para engolir a dor da lembrança…). Então, isso deveria ser denunciado ao Conselho Regional de Medicina de São Paulo, uma médica cesareanista do plano de saúde que não dá atenção à sua paciente, que manda esperar o SEU anestesista que está no trânsito… Feita a cesárea, dei um beijo rápido na cabeça do meu pequeno nascido ele foi levado para a UTI neonatal, todos foram embora, fiquei sozinha no Centro Cirúrgico, apareceu uma enfermeira para arrumar as coisas e eu lá, depois de tudo limpo alguém me empurrou para o quarto e lá fiquei até o dia seguinte, sem sair da cama, ai que dor e tristeza lembrar tudo isso, mas estou mexendo nesse baú, pra dizer que isso não é normal, que a mulher não pode ser submetida a esse tratamento na sua hora mais especial. A história seguiu com meu filho na UTI por mais dias que necessário, porque não tinha vaga na semi-intensiva, essa foi a resposta que recebi e por mais de 10 dias não amamentei, não peguei meu filho no colo, ainda não tinha me tornado mãe. Via meu pequeno com soro, sonda se debatendo numa incubadora e eu rezando do lado de fora do vidro, isso por 5 minutos, três vezes ao dia. Isso aconteceu no dia 05 de fevereiro de 1998 na maternidade São Paulo, hoje inexistente. Teria mais fatos para contar desse começo, mas já acho isso o suficiente para o Conselho se preocupar, mas quem sou eu, não é mesmo?

Passei muito tempo sem pensar em engravidar de novo.

Seis anos depois uma nova gravidez. Parece que o tempo ameniza as coisas. De novo procurei um obstetra do plano de saúde e o mesmo procedimento. Com 20 semanas fiz o exame de ultrassom morfológico , outro médico que deveria sofrer uma sansão do Conselho Regional de Medicina. Esse exame durou, entre minha chegada à clínica, atendimento e saída: 16 min! Contados pelo ticket do estacionamento. O médico disse que estava tudo bem e pronto. Eu saí insatisfeita. O obstetra acatou e assim continuou a gestação. Já no oitavo mês, eu achando que havia algo de errado, porque as mães sentem. De tanta insistência, saí da consulta com um novo pedido de ultrassom morfológico  e para minha triste surpresa, meu bebê apresentava uma má formação no coração, entre outras coisas. O obstetra disse que nesse caso não poderia me acompanhar mais e me encaminhou para um centro especial do Hospital Universitário. Conselho… Cadê você?

Daí eu e meu marido lembramo-nos de um famoso obstetra aqui se São Paulo e lá fomos bater na porta dele, uma clínica completa, sempre lotada, horas e horas de espera numa sala lotada de gestantes. Chegou minha vez, o médico examinou, olhou o ultrassom e disse para mim e meu marido: “A gente tem que avaliar se ainda vale apena investir nessa gravidez”, eu olhei e disse: Doutor nós preparamos um berço para o nosso filho e não um caixão. Saímos de lá aos prantos, com uma barriga enorme e um filho com nome, enxoval e família esperando por ele.

Foi ai que uma verdadeira amiga, grávida, lúcida e muito crítica me falou de seu médico, de que havia buscado muito e encontrou um que se encaixou em suas exigência e expectativas, Dr. Jorge Kuhn. Confiantes, marcamos uma consulta. Numa doçura e delicadeza infinitas ele nos atendeu, deixou claro de que nada poderia ser feito naquele momento, mas que meu filho certamente precisaria de cuidados especiais após o parto e por isso era NECESSÁRIO de que o parto fosse numa maternidade. Ele nos acompanhou por 4 consultas no último mês. Eu estava relativamente mais tranquila e muito segura. Ele não fazia exame de toque, não tinha necessidade, mas um dia não escutou o coração dele. Fiz um ultrassom. Eu resisti em acreditar que o pior tinha acontecido, mas era fato, meu bebê havia morrido… Já quase em trabalho de parto fui para a casa conceber e assimilar o luto. Diante da morte não há o que fazer. Nesse dia o trabalho de parto engrenou. Ligamos para o Dr. Jorge que foi monitorando e pediu que a Ana Cris, doula na época fosse para a minha casa, ele também estava a caminho, tudo foi muito rápido e ele falou com meu marido para ver comigo se eu não preferia ficar em casa, naquela situação, o parto deveria ser normal, por segurança minha inclusive. Meu pequeno Gabriel nasceu em casa, um parto com todos os cuidados necessários, profundamente humanizado, foi acolhido, amado, nós fomos RESPEITADOS. Não foi programado que seria assim, mas eu não fui desamparada, deixada como antes… O Dr. Jorge esteve presente madrugada adentro na minha casa, ele e sua esposa, também obstetra, me consolaram, vestiram meu filho e o deixaram ao meu lada, como eu quis para que eu pudesse vela-lo e despedir-me. Ele não cobrou um real de mim, nada. E não acabou ai, cuidou de mim no pós parto. Foi por ele que eu não desisti em engravidar de novo. Foi por ele que eu conheci o que é se tornar mãe e foi naquele parto que eu me apoderei verdadeiramente do sentido de ser mãe. É esse médico que o Conselho quer? De que lado o Conselho está?

Sete meses depois engravidei novamente, daí meu pré-natal já tinha endereço certo: Jorge Kunh queria uma gravidez sem sustos e a surpresa. A alegre surpresa era uma gestação gemelar. Tudo correu bem. O Dr. Jorge foi bem claro de que o parto deveria ser numa maternidade e assim foi, duas filhas nascidas com toda a assistência necessária de uma equipe enorme com doulas, obstetras, neonatologitas, minhas filhas nasceram no tempo delas, cada uma num dia, com mais de 7 horas de diferença. Isso porque a primeira nasceu no quarto da maternidade e a segunda se acomodou de forma transversal, dai precisou de uma manobra externa. Lembrou-me bem que após o nascimento da primeira, ela foi para o meu peito, mamou, ficou ali comigo. As pessoas me perguntam: “mas você ficou com dor todo esse tempo?”  E eu digo que não me lembro dessa dor, a alegria era tanta que faria tudo de novo, eu estava sendo monitorada a todo instante, a decisão da manobra foi na hora certa e eu também fiquei muito ciente que isso poderia virar uma cesária necessária, fui tranquila. O anestesista foi o disponível na maternidade, não fiquei esperando ninguém preso no trânsito.

Senti a emoção do parto da minha segunda filha presente no olhar e na alegria daquela equipe ali do meu lado. Nasceram muito bem, ficaram comigo, mamaram no primeiro instante, não sofreram intervenções. Fomos para a casa, felizes e com a família bem maior.

Há um ano nasceu meu quarto filho, esse foi acompanhado pela Ana Cris, obstetriz, aquela que segurou minha mão no parto do meu pequeno Gabriel, ela é fruto do Dr. Jorge e eu sabia que estaria segura. Assim foi, uma gestação tranquila, sem sustos, um parto natural, festivo, em casa, ao lado das minhas duas filhas e do meu filho mais velho. Meu quarto filho nasceu de pé, já chegou chutando pra longe todos os fantasmas do primeiro parto, provou para mim a mulher emponderada que sou, a mãe feliz e consciente. Minha família tem muitas razões de vida para lutar de defender a liberdade de escolha, o respeito ao parto e à mulher, o tratamento digno e humanizado. Por isso, nós vamos à luta, nós não tememos contar nossa história e assumir nossas escolhas. Estamos presentes!