Era pra eu estar grávida ainda.

Dois meses e dezessete dias. O dia, é 20/02/2016.

Eu fui do céu ao inferno, direto, sem escalas. Num momento eu tinha tudo, e horas depois, eu não tinha mais nada.

Meus bebês me deixaram no terceiro dia de vida, superaram as tão temidas 24 horas iniciais, mas não passaram a primeira semana.

Passei pela aceitação da alta prematuridade, já havia traçado os planos para mais uma vez ser mãe de UTI, mas não foi assim. Eles se foram. E junto com eles foram sonhos, uma vida toda já planejada em sonhos.

À escola, eu não vou levar, e faculdade, eu não vou ter que pagar, a nora que eu nunca acharia ser digna deles (por melhores que fossem), não vai existir. A preocupação com os gastos que teríamos, se resumiu a dois enterros.

A vida?! Bem, ela não parou, eu não morri junto, eu estou aqui sobrevivendo.

Dois meses e dezessete dias depois de meu Adeus me vejo diante de um novo Adeus.

Leonardo e Eduardo nasceram 3 meses antes do tempo, o que me traz a data de hoje. Minha data prevista de parto seria dia 9 de março, mas como se tratava de dois, desde o começo eu coloquei em minha cabeça que eles nasceriam no meio de fevereiro, portanto a qualquer momento daqui até março.

Durante esses dois meses e dezessete dias, um sentimento vem me acompanhando todos os dias, e justificando toda minha dor e sofrimento: Era pra eu estar grávida ainda.  Quando me mandam superar, deixar pra lá, eu digo: Você quer que eu supere? Era pra eu estar grávida ainda! Era pros meus bebes estarem aqui! Era pra eles nascerem ainda, e no entanto não estão e não estarão! Era pra eu estar gravida, mas não estou.

Hoje eu me sinto como quando torci o pé. Usei muletas e bota por algum tempo, mas depois eles tiram a bota, te socam na fisioterapia, e logo você é obrigada a deixar de lado aquela muleta também. Aquele objeto que durante um bom tempo, te ajudou a se manter em pé. E tudo isso é tirado de você, antes que seu pé pare de doer.

Eu estou prestes a ter que caminhar novamente, mesmo com muita dor, sem a muleta.  Em breve, o “era pra eu estar gravida ainda” vai se quebrar, vai ser tirado de mim.

Tenho estudado muito esse tempo todo. Meu assunto: Luto. Muitos textos me ensinam, muitos me identifico, todos me ajudam.

Pude perceber, que junto com o filho, morre a pessoa que você era. Muitas mudanças são exigidas, você resolve mudar sua vida. Eu parei de beber, troquei de faculdade, de curso, reorganizei minhas prioridades. No começo eu não via mais prioridades. Eu ia ser mãe de gêmeos, essa era a prioridade máxima, quando veio a destruição dessa prioridade como fica? Você muda a sua vida em função daquela prioridade, e ela some, desaparece, deixa de existir. O jeito é parar tudo, e quando for possível, tentar reorganizar.

É como fazer uma faxina numa prateleira de livros. Você tem que jogar todos eles no chão, e depois pegar um por um e recolocar. Alguns livros você passa a dar mais valor, e coloca eles em foco, alguns você percebe que se tornaram inúteis, e os joga fora, tem ainda aqueles que você não gosta de ver o tempo todo, mas não quer se livrar deles e portanto os coloca lá em baixo, no fundo, para não ver, mas fica confortável em saber que eles ainda estão ali.

Diante da morte, eu escolhi a vida. Meus filhos me deixaram fisicamente, porém, a vida deles, depende apenas de mim. E em mim eles renasceram, através de priorizar minha família, parar de beber, otimizar meu tempo, reconhecer atitudes erradas e tentar muda-las. Dessa forma, vejo eles renascerem e viverem para sempre dentro de meu coração, através do amor e da gratidão!

Não vou ser hipócrita e dizer que eu passaria por tudo isso de novo. Eu preferia um milhão de vezes continuar a Camila que eu era, se pra isso eu tivesse eles aqui. Mas a questão é que isso nunca vai acontecer! É necessário reconhecer a morte física deles, para a partir de então poder mante-los vivos em mim, através dessas mudanças.  Ou então eu posso continuar negando que eles morreram e ficar negociando com ninguém, algo que nunca vai acontecer: eles voltarem.

Sabendo então que eles jamais voltarão, meu dever é valorizar o que puder.  É agradecer a eles por terem me tornado uma mãe melhor pra irmã deles, uma companheira melhor para o pai deles, uma pessoa com o pé no chão e focada na família. Somente assim é que a breve passagem que fizeram não terá sido em vão.

Eu acredito que luto de mãe não tem fim. Após o adeus ao corpo físico, estou dando adeus ao era pra eu estar gravida, adeus a data prevista de parto, e ainda vão vir: dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, meu primeiro aniversário sem eles, aniversario de um ano de nascimento, aniversario de um ano de morte, segundo natal sem eles, segundo réveillon sem eles,  presença de crianças completando um ano de vida, segundo dia das mães sem eles, depois terceiro, quarto…….

Meus filhos existiram, e me marcaram. Eles foram gerados, gestados, queridos, amados, nascidos, cuidados…. Eles completariam, um, dois, cinco, dez, vinte, quarenta anos de vida. E infelizmente, todos os anos daqui pra frente, eles completarão, um ano de vida, e um ano de morte, portanto nunca, jamais, serão esquecidos.

Cada um a sua maneira, após perder fisicamente seu filho, carregará para o resto da vida a missão de mantê-los vivos em si, isso gera a principio uma auto cobrança absurda, pois o medo de esquecer é grande e apenas com o tempo é que iremos ver que isso é uma preocupação desnecessária. Eles jamais serão esquecidos.

O tempo passa, e podemos escolher viver diariamente com a dor, ou deixar que o amor vá invadindo nossos corações. O reconhecimento da troca da dor, pelo amor, não significa que não existe mais dor. Significa que algo foi feito, e que a breve vida daquele ser não foi em vão. Em pouco tempo, eles tiveram e cumpriram uma linda missão, e eu só pude admitir isso através de vários relatos, com diversos desfechos diferentes, mas todos com o mesmo final. Por muito tempo eu carreguei comigo o “e se?”. E se eu tivesse segurado eles mais uma semana? E se eu tivesse atendimento correto no primeiro hospital que procurei? E se o médico do pré-natal tivesse costurado meu útero? E se? E se? E se?????? Eu vi bebes que nasceram do mesmo tempo que eles, alguns até mais leves, e viveram. Eu vi mulheres que passaram mais de 50 dias internadas, segurando a gestação e o bebe morrer ainda na barriga, ou nascer e morrer algumas horas depois. Eu vi gestações que chegaram a termo, e o bebe morreu antes de nascer, ou nasceu e morreu. Eu vi bebes de 40 semanas nascerem vivos e morreram horas depois. Eu li muito, eu li de tudo….. E se….. Não me importa mais. Não sei o motivo, não vou dizer que é destino, e não vou dizer que Deus quis assim, e muito menos vou dizer que foi melhor assim!!! Não foi melhor!! Mas a questão é que não importa mais, pois já foi, e nada vai mudar. Eu não faço a menor idéia de por que foi comigo?! Justo comigo?! Mas foi comigo e questionar isso não muda nada. Hoje eu sei que questionar isso, não muda nada, mas aceitar isso, e trabalhar por causa disso, muda tudo.

Enfim, eu não sei pra onde vou ou como vou, mas eu sei que vou! Por que eu decidi viver e dar sentido a tudo isso. Eu resolvi não deixar nada ser em vão, eu me desafiei a ver somente o lado bom das coisas. Eu posso pensar que não existe lado bom em ter perdido meus bebes, ou eu posso pensar que por mais que seja doloroso, e que eu preferia que estivessem aqui pra sempre, eles me obrigaram a me enfrentar, e a partir de então mudar, mudar muito. Eu poderia dizer que não existe lado bom em dias ruins, mas o lado bom é que eles terminam. Eu poderia dizer que preferia ter morrido junto, e realmente uma grande parte de mim morreu junto com eles, mas somente com essa parte morrendo é que foi possível nascer uma outra parte nova e diferente. Eu posso reclamar da grama do vizinho ser mais verde que a minha, ou eu posso agradecer por ter um pouco de grama para aliviar a energia dos pés ao final do dia.

Eu poderia sobreviver anos e anos, sofrendo todos os dias sem falta, até desistir da vida. Mas eu resolvi me desafiar e ir contra tudo isso! Eu optei por viver, e por deixa-los viver num lugar onde nunca morrerão ou serão atingidos: No meu coração.