Minha historia de dor e amor mais intensa da minha vida

Minha historia de dor e amor mais intensa da minha vida

Bem, eu engravidei no final de janeiro de 2014. 11 anos após minha primeira gestação, hoje Cecília que veio antes tem 12 anos. Tive uma cesárea na gestação dela porque ela estava pélvica e não poderia tentar um parto normal porque era a primeira gestação. Bem, Cecília nasceu muito bem. Saudável, linda. Sempre quis ter outro filho, ou filhos. Mas me separei muito rápido e essa vontade ficou suspensa. Em 2011 casei novamente, e a vontade de ter outro filho voltou. E fui driblando essa vontade com outros projetos, outros filhos-projetos e assim foi até o inicio de 2014. Nossa, vocês não podem imaginar o quanto feliz eu fiquei. Eu tava sendo muito abençoada. Foi uma gravidez linda. Com muito amor por nosso filho, pelo tão esperado irmão. Ate que na semana 30 eu descobri que não estava tudo tão maravilhoso assim, eu estava com diabetes gestacional, que susto! Fiquei muito assustada mas eu estava muito bem amparada por uma equipe maravilhosa, obstetra e endócrino trabalhando junto comigo uma dieta sem açúcar para controlar o peso do Miguel para que eu pudesse ter o meu sonhado parto natural. E eu trabalhando meu espiritual, emocional e psíquico para receber Miguel da forma mais respeitosa que poderíamos. De novo, estamos em extase, muito amor despendido por Miguel, pelo meu marido que havia quebrado muitos paradigmas a respeito do parto normal e assim, com muita labuta conseguimos uma equipe de parto humanizado para nos assistir. Eu havia emagrecido com a dieta, estava muito disposta, até os inchaços normais de gravidez diminuíram, eu estava me sentindo maravilhosa para conseguir trazer Miguel ao mundo com vitalidade e tudo o mais. Na semana 39 ja estávamos mega ansiosos, o dia ficava cada vez mais próximo. Minha ultima consulta seria dois dias depois de completadas 40 semanas. Numa quarta feira. Dia 06/11/2014. Minhas contrações de treinamento ativavam a noite, contraia o útero bastante mas não engatava de fato, meu corpo estava se preparando pro parto. Num dia antes senti o Miguel muito quietinho mas pensei que bom, ele deve estar se preparando para o encaixe, para o parto de fato. No dia 06, na quarta. No consultório medico, no ultimo dia de consulta pré natal, fomos do céu ao inferno em 3 minutos. Da comemoração do colo do útero dilatando entre a ausculta do coração de Miguel sem pulsação. Estava tudo pronto pro parto mas não havia mais meu filho vivo. Estava tudo feliz mas de repente tudo ficou terrivelmente triste. Eu, eu entrei em estado de choque. O medico falava e eu escutava uma onda atrás dele, como em câmera lenta. Tipo um barulho ensurdecedor atrás dele e eu fiquei nesse estado por muito tempo. Meu marido entrou em desespero. E eu não conseguia entender porque ele simplesmente não revertia tudo aquilo, amor “o que foi que eu fiz???” foi a pergunta. E escolhi ir pro hospital ter o Miguel naquele dia. Não consegui ter um parto natural, esperar ate a natureza do meu corpo trazer meu filho mas foi um parto normal, respeitoso. E foi muito intenso, forte, eu entrei em profundo contato com algo que não posso explicar, que esta alem de mim, de nós, daqui desse mundo. Eu estava sendo amparada de forma maravilhosa por uma força que não sei explicar, eu parecia uma leoa de tão forte em fazer esse parto tao difícil, esse parto de despedida. Parir essa perda. Tive a melhor equipe comigo, meu marido não saiu do meu lado um segundo sequer, foi e sempre será o melhor pai do mundo. A minha doula e todas as pessoas em volta foram colocada ali por algum motivo maior, porque mais pareciam uns anjos na terra cuidando de mim. Eu tive um parto muito rápido, um expulsivo muito tranquilo. E nasceu Miguel. E um misto de sentimentos tomou conta da minha alma, de todo meu corpo, num ímpeto de amor eu peguei meu filho no colo e eu queria dizer: bem vindo meu filho, mas a vida pediu com que as palavras fossem um até breve, até logo. E agradeci a ele por toda essa jornada de amor que ele permitiu que eu vivesse nessas 40 semanas. 40 semanas do segundo amor mais puro que ja senti, porque ja havia vivenciado a maternidade, mas não como vivenciei com Miguel. Cada dia foi um dia especial. Porque foram únicos realmente. E algo me dizia para não esquecer cada dia porque algo no meu intimo dizia que Miguel partiria muito rápido, eu não poderia supor, mas algo, bem sutil me contava. E assim foi. Despedi de Miguel sem a concretude da perda. Ate hoje não sei o que houve, não tinha cordão enrolado, tinha bolsa intacta que rompeu na mesa do parto, tinha tudo para dar certo e deu o avesso, o contrario, a via torta de dar certo. Nunca vou sentir tanta dor e tanto amor ao mesmo tempo, e o cheiro dele, nunca vou esquecer. Cheiro de vida nas minhas mãos ainda que já não estivesse ali vivo. É uma parte de mim que ainda não da conta do que eu vivi, as vezes acho que foi outra Rafaella que esteve ali naquelas 12 horas de profunda dor mas ai eu lembro que aquela sou eu. Que eu sou assim, capaz de viver um amor tão profundo apesar de toda dor. Capaz de despedir de um filho que ja não vive, capaz de amar incondicinalmente um filho invisível, apenas sentido no fundo da alma e dentro do coração. Como conseguimos isso? Eu realmente não sei, eu ja conheci mulheres extraordinárias nesses 6 meses, sinto uma profunda gratidão por cada historia que compartilham comigo porque eu sinto que existe Amor dentro desse fractal da nossa historia, que é muito dolorida sim, muito triste mas que por dentro de cada linha dessa tristeza um ponto de amor consegue brotar. Porque somos isso ai mesmo, essa espiral de amor. Que habita dois mundos, que habita todos os níveis do nosso corpo, que habita cada camada do nosso coração e que chega ate a essencia dos nossos filhos, que estão num lugar que um dia vamos conseguir alcançar conscientemente. Gratidão pela oportunidade. Um abraço a todas, e sempre falo: se quiser conversar, estou sempre aqui. <3