Nunca ouvirei ele me chamando de mamãe.

O Arthur não foi planejado. Descobri a gravidez devido a uma infecção urinária.

Quando recebi o resultado do exame, além da infecção, descobri que estava grávida de 6 semanas. Foi um tremendo de um susto, afinal estava noiva, com um apartamento para arrumar, imobiliar… e não tinha feito nada ainda. Porém, fiquei muito feliz, e quando dei a notícia para meu noivo, comecei a chorar. A partir daí foram feitos exames, todas as ultrassonografias. Sempre tudo muito normal, graças a Deus.

Desde o primeiro exame eu comecei a montar uma pasta com tudo do Arthur, Exame de gravidez, todas as ultrassonografias, DVDs, exames dele do hospital, do pezinho. A intenção é que ele pudesse ver como foi amado desde o primeiro momento.

No dia 18/9/2014 descobri que estava esperando um menininho. Que emoção! Naquele dia decidimos que o nome dele seria Arthur. A Gravidez foi muito normal, fui muito bem acompanhada por minha obstetra.

O Arthur nasceu em 02/02/2015, um menino lindo e enorme. Nasceu de cesárea com 56 cm e 3.890 kg com 40 semanas. Perfeito, saudável. Ser mãe do Arthur foi muito fácil.

Arthur era um menino abençoado, praticamente não deu trabalho. Não teve cólicas, não ficava chorando de madrugada. Ele acordava, mamava, arrotada e eu o colocava no berço novamente, acordado, e ele dormia sozinho. Como eu amava aquele bebê, como ele me fez feliz. Em tão pouco tempo, me fez a pessoa mais feliz desse mundo.

O Arthur sempre foi muito sorridente desde bem novinho, porém com dois meses e meio o Arthur deu a primeira gargalhada para o meu pai. Lindo!!!!

A partir daí, era muito fácil “arrancar” uma gargalhada do Arthur. Ele foi um bebê muito feliz, muito risonho. O Arthur acordava de manhã e ficava falando “Angu”, fazendo motorzinho com a boca. Eu sempre ficava um tempo olhando, admirando, até que ele me via e lançava aquele sorriso delicioso. Aí eu agarrava ele, beijava,  beijava e falava o quanto ele era importante para mim.

O Arthur tinha um olhar lindo, e eu era completamente apaixonada pelos olhos dele. Ele sorria com os olhos. Sim, era tão bonitinho o olhinho dele quando estava sorrindo.  Mas infelizmente, desde que deu entrada no hospital, nunca mais abriu os olhos, nunca mais vi aquele lindo olhar que alegrava meus dias.

Na véspera da ida do meu príncipe, ele estava ótimo, risonho. Brincamos até tarde. Gravei vídeo, áudio dele brincando. Ele não queria dormir, só queria brincar. As 4 da manhã acordou para mamar e novamente queria ficar brincando, mas amamentei e coloquei ele no berço novamente. Quando foi as 7h, Arthur acordou gemendo e com 38,7 de febre.

Dei um banho morno, esperei uns minutos e quando fui medir, 39,1. Corremos com ele para o hospital, vários exames e o Arthur somete gemia. Não queria o colo de ninguém, somente o meu. Não mamou no peito, teve que ficar a base do soro e remédio, para parar o vômito. Ele gemeu muito. Nem chorava, gritava… acho que a dor era tanta que ele somente gemia. Lembro daquele olhar de suplica, me pedindo ajuda. O sentimento de impotência por não fazer nada para tirar aquela dor…

Dei entrada no hospital as 9h , saí de lá as 17h sem um diagnóstico. De tão desesperada, saí de lá ainda com o acesso do soro no bracinho dele. Chorando, desesperada porque via meu filho com dor e não podia fazer nada. Fui para outro hospital e mais uma médica disse que ele não tinha nada, apenas estava cansado e por isso gemia tanto. Disse inclusive que eu que deveria ser medicada porque meu filho estava perfeito.

Graças a Deus trocaram o plantão, e o médico que assumiu imediatamente desconfiou de Meningite. Isso por volta de 23h. Por volta de 0h foi concluído que era meningite através do exame do Licor.  A partir daí, foi uma loucura para achar UTI com isolamento, ambulância com UTI.

Conseguimos as 4h uma UTI em Mogi das Cruzes e seguimos para lá. Tudo isso em 22/06. Me lembro do médico dizendo “Tomara que não seja a bacteriana, não pode ser a bacteriana”. Pois bem, no dia seguinte veio o diagnóstico: Meningite Bacteriana. Além de ser a bacteriana, ele foi diagnosticado com a bactéria mais potente, mais fatal.

Fizemos eletro e foi concluído que aquela maldita bactéria tinha tomado todo o lado esquerdo do cérebro do meu filho. Ele teria sequelas.

Mas eu tinha muita esperança, me pegava em detalhes para acreditar que ele sairia dali. Mas tudo foi piorando, ele parou de fazer xixi, teve mais de 80 convulsões em um só dia, não segurava mais temperatura. Tinha febre em uma hora e depois a temperatura chegou a descer para 33,1. Lembro que praticamente subi em cima dele na caminha da UTI para aquecer o corpinho dele. Teve que ser entubado, a princípio com 40% de oxigênio, e na última semana, já passou a depender 100% da máquina.

Lembro que o primeiro banho do Arthur, naquela UTI, eu não consegui ver. Saí chorando. A hora do banho era a hora que mais brincávamos. Ele adorava tomar banho, fazia a maior bagunça e molhava toda a minha cama. Ver ele tomando banho daquele jeito, naquela UTI, foi triste demais. Como se facas estivessem sendo empurradas no meu peito.

Às vezes, fazemos algumas atividades mecanicamente, sem perceber e sentir o prazer daquilo. Lembro que no hospital eu fiquei pedindo para trocar a fralda do Arthur, até que uma enfermeira autorizou. Como foi emocionante trocar a fralda e limpar meu bebezinho. Uma atividade que até dias atrás era tão normal…

Nesses 12 dias, em nenhum dia ele deixou de receber visita do meu esposo, que foi um exemplo de força, de pai, que me dava forças e tinha uma fé inabalável. Ele me dava forças para não desanimar. Meu pai também o visitou todos os dias. Os 140 km de distância de casa para o hospital não foram empecilhos para ninguém.

Desde que o Arthur entrou naquele hospital, começou uma corrente de oração. Pessoas de todos os lugares, conhecidos, desconhecidos… todos pedindo a cura do Arthur.

A médica me disse no primeiro momento que o Arthur tinha 50% de chance de sobreviver e 80% de sair com sequelas. Depois de uma semana, 100% de chance de sair “vegetativo” ou sem vida. Ela desligou todos os sedativos e chegou a conclusão de morte cerebral porque mesmo após 48 horas, ele não reagia.

Estava fazendo os exames para concluir a morte cerebral. Deve ser feito 4 exames, cada um por uma equipe diferente. 2 deles deram positivo. Meu lindo Arthur teve morte cerebral.

No dia do terceiro exame, tudo aconteceu. Exatamente as 3h, quando acordei para fazer minhas orações, os aparelhos começaram a disparar. A médica disse que o coração dele estava fraco e não reagindo mais aos medicamentos. Pediu para que eu ligasse para os familiares. Ele teve duas paradas cardíacas. Depois da primeira, segurei nas mãos dele e o abençoei. Disse que podia ir porque já tinha me dado os cinco melhores meses da minha vida. Podia ir em paz, descansar, porque eu iria ficar bem. E ele me ouviu e foi. Depois de 12 dias ligado aqueles aparelhos, sendo furado duas vezes por dia para colher exames, tantos procedimentos, enfim, ele descansou.

A médica de plantão comentou que o Arthur foi um guerreiro. Ele resistiu todos aqueles dias, com uma bactéria fatal, que mata com até 6 horas. Arthur continuou por 12 dias.

Meu mundo se foi com ele. Toda minha alegria, meu motivo de sorrir, de viver. Hoje não tenho mais planos para o futuro..  porque tudo que tinha envolvia meu príncipe Arthur.

Como foi feliz com ele, como eu sorria. Eu ria a toa, brincava com ele como se fossemos da mesma idade. Mas quis o destino que não ficássemos juntos por muito mais tempo.

Hoje me pego olhando para outros bebês, pensando como ele estaria hoje. Vejo pais levando os filhos ao shopping, parques, escolas..  e lembro que nunca farei isso com o Arthur. Nunca ouvirei ele me chamando de mamãe.

Não escrevo isso para que ninguém tenha dó de mim ou coisa do tipo. É para contar a história do meu lindo anjo Arthur. E também para que ninguém fique reclamando à toa da vida. Se você tem saúde, tem sua família, agradeça imensamente a Deus. Sempre acreditei em Deus e agradeci, mas só fui perceber realmente a benção que é levantar todos os dias com saúde quando vi meu filho naquele hospital.

Tenho muito que agradecer a toda equipe médica, enfermeiras do Hospital Materno Infantil de Mogi das Cruzes, que trataram meu filho com tanto amor e carinho. A todos meus familiares, parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos. Se não fosse esse apoio, com certeza eu não aguentaria. E Principalmente a Deus porque mesmo no pior momento, me sinto carregada no colo e amparada.

Enfim, essa foi a minha história e do Arthur. Uma linda história que durou apenas 5 meses e 3 dias.

Espero que não tenha sido um Adeus, mas sim um Até Breve.

 Sua mãe.