O verbo amar

Meu nome é Lucy. Sou mãe desde o ano de 2000, de um menino lindo…

Quando ele era menor, não tinha planos de outra criança, achava que jamais amaria alguém tão intensamente quanto ele.

Mas o tempo passou, novo relacionamento, e com a vida mais estabilizada a vontade de outro bebê começou a surgir.

Rayssa já estava na minha vida…

Quando confirmei a gravidez, meu filho foi o primeiro a saber. Chamei ele prá conversar e não precisei dizer uma só palavra, ele já entendeu a emoção nos meus olhos…

Fui comprar uma roupinha de bebê para dar a notícia ao meu marido e à minha mãe.

Nos abraçamos muito…ele ficou sem chão..

Com o sonho da nova vida, nossas vidas também mudou..para melhor!

Começou o pré-natal, as compras de enxoval, berço, acomodações, móveis…quanto presente!!

Ao saber que seria uma menina…uau…uma explosão de sentimentos…não tinha como não chorar…

Precisei entender que havia vários de tons de rosa…rosa claro, rosa escuro, rosa bebê…quanto laço de cabelo, quantos vestidinhos, quantos sapatinhos…

Curso de gestante era essencial…mas deu uma vontade enorme de faltar na palestra da UTI neonatal…Jamais eu ia precisar disso. Talvez se eu fosse mãe de gêmeos, que nascem um pouco abaixo do peso. Mas eu estava tendo a melhor gestação do mundo…sem nenhuma ocorrência.

Cada ultrassom era mais emocionante que o anterior. Ela crescia muito bem, dobrava de tamanho e peso, e ouvir seu coraçãozinho era meu melhor presente.

No último ultrassom já sabia que ela era um bebê com ótimo peso e tamanho.

Me preparei para o nosso encontro. Como do meu primeiro filho, eu sabia que esse momento mágico seria marcado para sempre na minha vida. Me preparei emocionalmente para o parto normal. Eu queria respeitar a vontade dela. Ela nasceria no dia dela, quando ela se sentisse pronta. E assim foi!

Ela nasceu no dia 28 de agosto, as 14 horas, com 38 semanas de gestação.

Não entendo o destino…não consigo aceitar o porquê fui escolhida para ser mãe de anjo. Não foi isso que pedi para Deus em minhas orações.

Minha Rayssa não conseguiu respirar depois que cortou o cordão que nos unia até naquele momento.

A bebê mais linda de todas…forte e gordinha…

A pediatra me deixou vê-la e disse: estou levando ela para a incubadora, ela não está bem!

Em seguida, foi levada para a UTI para ser entubada e sedada. Ouvi sem entender um “é grave, muito grave!”

Na minha inocência, achava que a melhor UTI da cidade ia salvar minha filha. Isso não ia acontecer com minha filhinha. Ela tinha um peso bom e não era prematura.

Fui com meu marido conhecer nossa Rayssa através daquele berço…Meu Deus…que vontade de tirar ela de lá, eu precisava carregar ela, dar de mamar, dar todo o amor do mundo…mas isso foi negado a nós. Eu só podia tocar nela…

33 horas depois do seu nascimento, depois de muita angústia e de muitas orações recebemos a pior notícia que um médico pode dar a uma MÂE: ela não resistiu!

Naquele instante meu marido desabou. Eu entrei em choque. Eu pedi e fui autorizada a carregar ela. Foi a primeira e última vez. Eu senti o cheiro dela, o peso dela…ela era tão tão tão linda….meus sonhos ali…passou um filme na minha cabeça…por um instante achei que meu amor pudesse devolver a vida aquele anjo…

Meu mundo foi da alegria à tristeza profunda em poucos segundos…da esperança à desilusão, da fé à descrença…da rosa ao cinza…ao escuro total…do céu ao inferno…

Com você, Rayssa, eu aprendi a lidar com a paciência das 38 semanas…aprendi a amar um filho além da vida.

Aprendi o poder de uma bola de Pilates, e confirmei o poder de uma lua cheia e da ocitocina na madrugada.

Aprendi que 33 horas são o suficiente para marcar uma vida e uma família para sempre.

Aprendi que os melhores médicos não são Deuses.

Aprendi que “querer” não é “poder”.

Ainda preciso aprender muita coisa…Como explicar isso às crianças que estavam te esperando prá brincar e prá crescer com você?

Como explicar ao meu filho o que é amor de irmão?  Como voltar prá casa e ver aquele berço vazio?

Não me faltaram abraços…nossa família e todos nossos amigos estavam lá. Mas essa dor é só minha…essa dor que não vai passar nunca é só minha…E assim será até o dia do reencontro. Escolhi uma estrela no céu prá dizer “boa noite minha filha” …mas acho que você, pequena Rayssa, está muito mais viva aqui dentro de mim…

Tiraram de mim o direito de amamentar, acalentar, carregar, beijar, abraçar, ensinar, dançar, cantar, correr, acordar, brincar, sorrir, alimentar….

Só me restou o direito de conjugar o verbo AMAR!

E esse vai ser eternamente conjugado…