Por que eu exponho tanto a minha dor?

Porque eu exponho tanto a minha dor

Já me perguntaram diversas vezes porque eu exponho tanto a minha dor por aqui. Explico:
Foi e é intencional. Faz parte do meu processo de luto. Ajuda a elaborar melhor minhas dores, minha tristeza, minhas angústias. A morte chegou muito cedo a mim quando levou meu pai, num susto. Ao longo dos anos foram muitas perdas de pessoas queridas.
Penso porque o assunto morte incomoda tanto as pessoas. Muitas e muitas se calam. Ou na presença desta ou na sua iminência. Não se fala em dor, em sofrimento, em tristezas. Evita-se assuntos que tragam desconforto, simplesmente por não saber como lidar com a dor, com o choro, com a impotência, com as decepções. E então, depois de anos e anos, enfrentando minhas dores em silêncio, adoeci. Lacan afirmou que “As doenças são palavras não ditas”. E hoje concordo com ele.
Perder um filho não é natural. Dói e muito!!! Ainda mais um bebê tão esperado e amado antes mesmo de ser concebido! Lido diariamente com a saudade, a dor da impotência, a culpa, e com os “nãos”:
Não apresentei ela a ninguém, não embalei, não dei banho, não ouvi seu choro. A dor veio a galope e numa rasteira só me derrubou e despejou mil outras coisas em cima de mim. Amigos que sumiram, pessoas que nos tratam como se nada tivesse acontecido, que diminuem nossa dor (afinal era só um bebê e nem deu tempo de amar), o trabalho que hoje passa ser um desafio ainda impossível (sim! estar em meio aos bebês ainda é doloroso demais!). Juntam-se as perguntas tendenciosas, as acusações. Antes eu era uma grávida, prestes a ter um filho nos braços. Planejei e preparei tudo para frequentar grupos de mães, parquinhos aos domingos, sala de espera da pediatra, lojas de roupas de bebês, programações infantis. Desfiz-me de quem era para dar lugar a essa nova mulher. E no mesmo instante que meu bebê se foi, levou essa mulher junto. Agora recolho os cacos, meses depois, enquanto muitos me dizem que eu já deveria ter superado, e que devo ter outro filho. Não! Ainda estou em meio ao caos. Reorganizando meus pensamentos, minhas ideias sobre mim mesma, meus planos, meu casamento, minha profissão. O terremoto passou. Aos poucos, a limpeza de escombros e resta agora um terreno vazio. Há muito a ser construído. Não faz mais sentido que tudo seja igual antes. A ferida foi aberta, e está sendo tratada. Um dia deixará de ser ferida para ser cicatriz. Por muitas vezes na vida escondi o que sentia. Segurei o choro, calei a dor. Vi que não funciona. Não comigo. Adoeci assim. Hoje, resolvi tentar o outro caminho: falar! Quando falo, exponho minha fraqueza. Percebo a minha condição humana, impotente e isso me acalenta. Porque vejo que tantos outros (que também se abrem e “vomitam” suas almas), passam por dores semelhantes. Cada um vive uma dor, mas no fim nos tornamos iguais. Fracos. E é dessa fraqueza que vem a força necessária para seguir em frente. Quando me reconheço fraca, percebo que nada está sob meu controle. Não posso mudar o passado, nem determinar o futuro. Aceito minhas limitações e entendo que não tenho superpoderes. Aliás, nenhum. Não consigo aumentar minha vida em 1 segundo sequer. Ao escrever sobre o que sinto, esvazio o coração para que um dia ele não deixe de pulsar. E é nesse esvaziar, que sinto-me mais leve para perceber (e agradecer) pelas coisas boas que a dor traz junto! Aprendi que ser fraca não significa não ser forte. Pelo contrário: para ser forte, preciso reconhecer minhas fraquezas. Cada uma delas. Aprendi a ser grata pelas 38 semanas e 3 dias que tive minha menina comigo na barriga, e 1 dia pertinho de mim e não só me lamentar por toda a vida que não terei com ela. Aprendi a ser mais tolerante com as pessoas. A enxergá-las além de suas falas e de seus sorrisos. Todas tem uma dor no peito, revelada ou não e que define o caminho que seguem. Cada um tem sua história, sabe onde lhe aperta o sapato e o que lhe sufoca o peito.
Não sou a mesma de antes. Mudaram meus medos, minhas alegrias, minhas dúvidas. na semana passada, reorganizando o armário e as coisas da Marcela, não pude de deixar de me sentir grata.
Gratidão pelas coisas boas que chegaram junto com a dor. Boas porque me permito enxergá-las assim e decidi por esse prisma. Não é uma visão Pollyana, mas um enfrentamento de que a vida continua e eu estou aqui, viva, mesmo que me falte um pedaço, ainda vivo e estou e cercada de coisas boas. Não ignoro minha dor, não a enfrento, pois ela sempre vence. Dou o espaço que ela necessita, mas nem um centímetro a mais. Entendi que a dor estará comigo por muito e muito tempo e o melhor é torná-la companheira do que inimiga. E isso me faz mais leve. Quantas coisas boas aconteceram desde então e me fazem um bem danado!!! Então sigo assim: um dia de cada vez. Não encaro como fim, mas como parte. Talvez um dia ainda consiga entender como um meio. E sei que não estou sozinha. Quanta gente querida tem me acolhido, se feito presente!! Obrigada pelas mensagens, pelos colos, pelos almoços, cafés e cafunés! Conto com Ele e com cada um que tem feito parte da minha história e da minha menina. E com isso não quero me vitimar, mas sim dizer que deixar doer vale a pena!! Pra mim, pra você e para o mundo!