Sem sentido…

Dia 14 de Dezembro de 2011, na sala do médico, não vi o coração bater. Acho que entrei em choque, pois aquela imagem pra mim estava errada. Não consigo me lembrar do que as pessoas começaram a falar, o médico dizia algo como entrada no hospital, mas só conseguia ouvir minha própria voz.

Um parto sem sentido… As 07 da manhã nos salões amplos e frios daquele hospital Não fez a menor diferença ser as 07 ou as 06, pois não havia deixado de pensar um instante no dia anterior ou na coleção de más notícias tidas até então. Ao mesmo tempo em que a sensação de que o dia seria ainda mais longo que a noite, o tempo parecia voar.

Entrando no hospital a gentileza local parecia a mesma. No entanto meu medo é que parecia ser ainda maior, me sentia irritada, confusa, todos insistiam em perguntar se seria uma cesárea, mesmo repetindo que não. Eu não conseguia olhar na cara das pessoas como dizer o que eu sabia ou o que eu estava sentindo, minha dor e angustia presa na garganta eram enormes.

Um parto sem sentido. O médico disse – Será induzido para que você não corra riscos de uma infecção ou venha a ter alguma cicatriz. Eu não estava ciente do que queria, mas se pudesse querer algo a certeza seria: “quero acordar desse pesadelo e ter certeza de que não passam de sonhos”. O que eu iria fazer? Minha garganta ardia, meu peito queria estourar…

Ao entrar na sala do oitavo andar, a enfermeira pediu para que eu ficasse sozinha e após isso me perguntou de quantos meses eu estava e se seria cesárea. Com muitas lágrimas consegui murmurar que estava ali, pois o meu bebe estava morto.

Morto? Natimorto? Essa palavra me assombrava como seria isso? Eu ainda não havia entendido isso ao certo, mas era o que estava escrito, sentia a minha barriga enorme, mas os movimentos internos haviam parados. Queria sentir algum movimento, contrariando o diagnóstico, mas nada, o silêncio interno me consumia. Depois disso as horas que vieram na sequencia foram ainda mais torturantes. Fiquei até as 18 sem tem dores fortes e tinha poucas contrações. Mas das 18 em diante não sei explicar quanta dor senti… Minha cabeça doía e sentia muita dor no peito, um aperto e angustia enorme me consumiam a cada instante.

Estava isolada, mas os sons que entravam no quarto que eu estava me faziam querer deixar de existir. Pelas lembranças dois bebes nasceram nos quartos ao lado do meu, lembro-me dos gritos fortes da mãe e na sequência um silêncio e um pequeno choro de criança.

E eu…? Meu bebe não iria chorar…

Por vez lembro de ter apagado por sentir muita dor. Lembro que aplicaram injeções para amenizar a dor, mas nada parecia ser suficiente. Sentia-me com vergonha e sem vontade de sair daquele lugar. Estava isolada, queria ter alguma companhia, mas todos pareciam se preocupar com qualquer outra coisa menos com alguma reação que eu pudesse estar sentindo. Eu normalmente sempre impaciente, mas parecia que eu queria estar cada vez mais conformada com a falta de recursos que me eram oferecidos.

Estive sozinha durante todo o tempo, no hospital, principalmente depois das 18, não havia enfermeiras ou médicos.  Ao mesmo tempo sabia que meu grande companheiro estava do lado de fora, preocupado e talvez angustiado por receber notícias. Sempre que alguém aparecia no meu quarto eu pedia para que dessem notícias ao meu grande amigo, meu amor, minha força e companhia.

Pensei em sair quebrando tudo e gritando, mas ao mesmo tempo lembrei que eles poderiam me apagar ou mesmo me manter amarrada para não dar trabalho. Desta forma optei por gritar. Nunca havia gritado tanto até então. Até que numa das ondas de dor o nascimento ocorreu.

Ainda sinto aquele momento e lembro aquele pequeno corpinho ligado ao meu. Meu gesto foi único… Normalmente me pego olhando “no tempo” procurando algo para explicar as situações e dai me lembro de que não temos controle do que passamos ou sentimos.

Por meses alimentei sonhos e vontades. Pensei em como apresentar a vida da melhor maneira possível para aquela “pequena pessoa” que estaria chegando. Durante todo o tempo ofereci o melhor do meu corpo e preparação. E com a chegada de exames mostrando que não havia nada de errado os sonhos e vontades só aumentavam, foram 5 meses até o dia 25 de Outubro/11, data do primeiro exame que mostrou alguns problemas. …

Agora o que vejo: tenho medo e uma extrema falta de vontade de ver pessoas ou estar com pessoas. Não sei ao certo o porquê. Ao mesmo tempo parece que todos estão conspirando para o silêncio – meus familiares e amigos não comentam o ocorrido. Às vezes tenho a impressão de que não tenho o direito de estar passando por isso. Que a minha recuperação moral não é algo correto, me sinto cansada, doente, incapaz. Uma mistura de sentimentos me envolve, tenho raiva, tenho medo, tenho muita vontade de fugir e desaparecer sem deixar rastros. Minha força é o Joni.