Um anjo chamado Henrique

Eu e meu marido nos casamos em agosto de 2014. Em outubro deste mesmo ano descobri que esperávamos um filho. Eu sempre me encantei muito pela ideia da maternidade, pois considero que nada no mundo pode ser mais belo do que gerar e dar a luz ao fruto de uma história. Fiz 2 exames de farmácia e ambos deram positivo, porém, a segunda listra era bem mais clara do que a primeira. Fui correndo até a casa de um casal de amigos pedir a opinião deles a respeito do resultado. Eles não tiveram dúvidas e disseram que eu realmente esperava um filho. Não satisfeita, no outro dia fiz exame laboratorial, que constatou a gestação. Fui ao centro da cidade onde moro e comprei diversas coisinhas de bebê para fazer uma surpresa ao meu esposo, afinal, também era um sonho para ele ter um filho. Ficamos muito emocionados e perplexos, afinal, a gestação tem o seu lado mágico. Era incrível imaginar que do nosso amor de 6 anos nasceria uma outra pessoa, um amor maior do que se pode qualificar. Ele foi amado e muito aguardado desde o primeiro segundo que descobrimos sua existência. Na primeira ultra não consegui ver o embrião, apenas o saquinho gestacional. Fiquei desesperada, pois pensei que a gestação não havia evoluído, já que pelas contas, na idade gestacional em que eu estava já deveria ter sido possível ouvir os batimentos. O médico recomendou que eu aguardasse 15 dias e repetisse o exame. Foram os dias mais longos da minha vida. O grande dia chegou e eu não conseguia pensar em outra coisa. Entramos eu e minha sogra na sala, o médico iniciou os exames e lá estava o meu bebê, parecendo um fantasminha e com o coração a todo vapor. As palavras jamais serão suficientes para expressar o que se passava no meu coração toda vez que ouvia o som mais esperado da minha vida. Eu queria que o tempo parasse só para que eu pudesse ouvi-lo um pouco mais. O tempo foi passando e a cada exame feito eu me apaixonava ainda mais. Com 15 semanas descobrimos que era um menino e, após muitas dúvidas, decidimos chamá-lo de Henrique. Ele foi crescendo e com 20 semanas começou a chutar. A partir daquele dia eu me apaixonei ainda mais pelo meu filho, pois o via reagir aos nossos estímulos. Além disso, toda vez que ele mexia é como se me dissesse: Mamãe, estou aqui e estou bem. Ele era muito quietinho e por isso me dava alguns sustos de vez em quando. Fomos parar umas 3 vezes na emergência por que ele ficou muito tempo sem se mexer. Eram horas angustiantes e pensar que algo pudesse ter acontecido ao meu filho me tirava o chão. Todas as vezes os médicos me disseram para me acalmar, pois o coração estava a todo vapor. Fizemos a USG morfológica e nada foi detectado. Ele estava gordinho e muito saudável. Tudo caminhava normalmente, até que no dia 22 de abril de 2015, com 31 semanas, ao fazer uma ultra de rotina, descobri que meu bebê estava em sofrimento fetal, pois seus batimentos estavam muito além do aceitável. O médico que fazia o exame me disse que deveria ir a uma maternidade o quanto antes, pois ele teria que nascer para que tivesse alguma chance de vida. Tentei contato com alguns familiares sem sucesso. Liguei para meu marido que estava trabalhando muito longe de onde eu estava e me disse para pegar um táxi até a maternidade e que logo me encontraria. Assim fiz, mas confesso que nunca me senti tão sozinha em toda a minha vida. No carro eu evitava chorar, para que meu nervosismo não o prejudicasse ainda mais. Porém, era impossível imaginar que o meu filho, a pessoa que eu mais amava do mundo estava sofrendo e não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo no momento. Chegando na maternidade fui maltratada. Mesmo apresentando um laudo médico que afirmava que o Henrique precisava nascer, o recepcionista me disse que eu deveria aguardar igual a todo mundo. Depois de tanto chorar um médico plantonista perguntou o que estava havendo. Mostrei a ele o laudo e o mesmo disse ao recepcionista que não cabia a ele julgar a gravidade e que se ele não tivesse aparecido o Henrique poderia ter morrido na minha barriga, sem ter tido qualquer chance de sobreviver. Entramos na sala e após ouvir o coração e constatar o problema, o Doutor Bruno logo me preparou para a cirurgia. Eu estava com a roupa do trabalho, sem nenhuma peça de roupa a mais, nem para mim, nem para meu filho. Quando tento me lembrar do desespero que senti, as lágrimas rolam sem frear, pois, um momento que foi tão sonhado por mim havia se tornado em um pesadelo cheio de medos, afinal ele era muito prematuro. O meu desespero de perdê-lo era tão grande que nem senti a injeção na espinha. O parto foi rápido e ele nasceu sem chorar. Após algum procedimento ele chorou e eu chorei junto, louca para abraçar e beijar aquele que era a razão da minha vida. Mas não pude fazer. Ele foi levado direto para a UTI e eu fui para o quarto. Após algumas horas meu marido fui visitá-lo. Disseram para ele que os batimentos haviam diminuído e que seu estado era estável. Meu marido tirou fotos e se emocionou bastante ao vê-lo tão lindo e grande. Não consegui dormir de tanta ansiedade. Ele nasceu às 20 horas e eu só poderia vê-lo ao meio dia do dia seguinte. A tão esperada hora chegou e quando entrei na sala e vi meu filho todo roxinho, com o peito machucado me desesperei. Ele havia sido reanimado diversas vezes devido a paradas cardíacas e apenas um milagre seria capaz de irá-lo daquela situação. Acariciei suas perninhas tão frágeis e pedi a Deus em oração que o guardasse de todo o mal e que seus anjos permanecessem ali, prontos para ajudá-lo. Abracei meu marido e sem pronunciar uma só palavra ele entendeu que ali era uma despedida. Ficamos com ele por um tempo e decidimos descer para ver alguns familiares que foram nos visitar. Cerca de meia hora depois a médica da uti ligou para minha mãe solicitando que nós subíssemos. Confesso que minha fé era tanta que eu acreditei em um milagre. Subi com a esperança de ouvi-la dizer que ele estava reagindo melhor do que esperavam. Mas não foi isso o que aconteceu. Ela demorou um pouco até nos receber e quando chegou na salinha nos disse que tentaram de tudo, mas que ele não sobreviveu. Disse ainda que se tivesse sobrevivido teria muitas sequelas cerebrais. Ela me instruiu a entrar na UTI e me despedir dele. Assim fiz. Por mais que eu tente, não consigo reportar minhas memórias para aquele dia. É como se meu cérebro tivesse apagado a lembrança mais triste e dolorosa da minha vida. Lembro apenas das minhas lágrimas rolando pelo rosto dele enquanto eu o abraçava e pedia a Deus para que soprasse nele o fôlego de vida. O que mais me dó é só ter conseguido abraçar meu amor quando ele já não tinha mais vida. Saí do hospital de cabeça baixa e com lágrimas nos olhos, pois não consegui encarar aquelas tantas mulheres que aguardavam a chegada de seus filhos. Cheguei em casa e não tive a alegria de colocá-lo em seu berço. Vi meus seios vazarem e não tinha quem amamentar. Esperei tanto pelo dia em que eu o teria nos braços, até que o dia chegou, mas não pude ver seus olhos, nem sentir suas mãos segurarem os meus dedos. Ele se foi deixando em mim um vazio que dilacera a alma e me faz entender que eu jamais serei como antes. Eu jamais conseguirei ser feliz plenamente. Aos 22 anos fui marcada pela vida de forma definitiva. Por mais que futuramente eu possa vir a ter outros filhos, jamais deixarei de lado a amargura de não pode ver o Henrique crescer. Não poderei ensiná-lo a ser um homem de bem. Não poderei me encantar com o seu sorriso, nem me alegrar quando ele me chamasse de mãe pela primeira vez. Vejo minha casa vazia. Olho para as paredes e percebo que elas não serão decoradas por ele. Não verei meu quarto molhado todas as vezes que ele fizesse festa ao tomar banho. Não terei o prazer de arrumá-lo para ir à escola, assim como não poderei ensiná-lo a fazer seus deveres de casa. Não o tenho mais comigo e isso me desespera. Me pergunto o porquê de tanto sofrimento. O que será que Deus quer me mostrar? Quem ele quer que eu seja ou faça? Estas perguntas permeiam minha mente. Enquanto isso eu tenho aprendido a conviver com a ausência tão dolorosa dele. O meu maior medo se tornou realidade e eu me lembrei de quando era criança e tinha medo de perder meus pais. Hoje me sinto assim, como uma criança que teve seu maior pesadelo realizado. Não sei o que a vida guarda para mim, mas sei que estas lembranças ficarão para sempre em minha memória e passe o tempo que for, jamais serei completa. Após 5 meses tento ir voltando para minha vida. Meus familiares e amigos sempre me levam a lugares que eu gostava e por alguns momentos sinto alegria. Logo depois eu volto para minha vida e me sinto vazia de novo. A única certeza que tenho é que a alegria ter sido mãe dele, mesmo que brevemente, é muito maior do que a tristeza de sua ausência. O fato é que ele viveu e será amado e lembrado até o último dia da minha vida.